março 23, 2012
Disfar..
Eu não queria que ele soubesse que eu era louca. Minha imagem de desequilibrada transpirava por meus poros e saia por palavras. Todo o tempo. E quando eu estava com ele me fazia de bem, sorria e silenciava. Meu medo era perdê-lo quando ele descobrisse toda minha insanidade... A de eu ser eu.
Décimo quarto andar
Estava tudo tão claro. Na varanda do décimo quarto andar, sentado na cadeira e pés pra cima. Cigarro na mão, café na xícara, 10 horas da manhã e 17 graus. Era eu, o cara mais ocupado do mundo na folga que eu havia me dado. Daqui de cima nem conseguia ouvir o barulho de Curitiba começando o dia. E esse meu tempo, planejado desde a volta pra casa no dia anterior, com meus filmes de Almodóvar e Buñuel empilhados próximo da TV, não servia para absolutamente nada a não ser pensar em minha vida. Isso nunca me acontecia e sem precisar de nenhuma terapia eu sabia por quê. Morria de medo desses momentos, sabia bem onde meus pensamentos iam parar, mas era preciso fazer isso de vez em quando. É preciso cutucar a ferida, deixá-la sangrar um pouco, e é assim que eu realmente me sinto vivo. O passado que não voltaria mais, o riso que eu jamais escutaria novamente ecoavam na minha mente, faziam figuras perfeitas e doíam ao mesmo tempo em que esboçavam um sorriso em meu rosto. Eu sei quem sou, me conheço bem a ponto de me conformar com o que não posso mudar, com o que não vai voltar. Olhava pro céu me perguntando num lapso de loucura se talvez ela estivesse a ler meus pensamentos de lá. Não queria morrer também, só queria encontrá-la de novo.
L.L.
L.L.
março 19, 2012
Demônios
E eu sentei naquele bar, naquelas mesas e cadeiras de madeira que eu adoro, na calçada, um cigarro aceso e um copo com água. Nunca havia me sentido tão bem, sozinha. E os meus demônios se acalmavam e eu me perguntava por que quando estava com ele, eles se agitavam dentro de mim. Eu não o dava paz, e depois me arrependia. Eu o tirava de si, o deixava à beira da loucura, e por prazer o fazia sofrer. Mas não era isso que eu queria, eram só esses demônios dentro de mim que me tomavam. Talvez fosse o que eu acreditava, só para tirar essa culpa. E naquele momento, sentava sozinha, parece que tudo fez sentido.
L.L.
L.L.
março 13, 2012
Meia de pé
E no meio das farsas do mundo a gente é feliz. No meio das xícaras de café de manhã a gente se encontra no olhar. No meio, leve interlavo de mãos grudadas que se despedem, somos saudade. Por entre as moedas que se vão e os maços de cigarro, isqueiros e fumaça, somos cumplices do escapismo da vida tão padronizada. No meio da noite escura somos olhos de gato, enxergando a alma um do outro.
L.L.
L.L.
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