outubro 30, 2011

Um título a critério

De vez em quando queria não usar palavras, embora seja o jeito mais objetivo de se mostrar qualquer coisa. Porque as vezes as palavras faltam, porque as vezes, algumas coisas, não precisam de palavras. Tem coisas que são tão subentendidas, tão nítidas nos olhos, no sorriso, que uma palavra poderia até estragar. Fico só com o título, e um fim em branco, onde posso preencher…sem palavras.



L.L.

O efeito

Pés descalços que rodavam sobre o eixo do meu corpo, no azulejo gelado do quarto. Corpo que se jogava em cima da cama, arrumada por falta do que fazer, pro tempo passar. Olhos que fechavam e abriam e pareciam ter uma fotografia de seu sorriso colada neles. Pele que sentia sua mão roçando há dias. Dentes que se mostravam quando o sorriso abria, amarelados de vergonha. Mente que não parava de pensar, pensar, lembrar, lembrar, querer, querer. Era eu, uma noite após você.

L.L.

outubro 26, 2011

Das almas

Acho que pessoas mais ligadas a sua alma são pessoas que se sentem bem com sua própria companhia. Não temem ficarem sozinhas, pois se bastam. E talvez por isso, quando entram em contato com outro ser conseguem passar a segurança de quem conhece tão bem sua própria alma que pode se dar ao desfrute de conhecer a alma do outro.

L.L.

A escala de cinza

Cinza, como tudo que é triste. E dai que o sol se mostra maravilhoso lá fora, e o céu está mais azul do que nunca esteve? E dai que as nuvens poucas que se encontram no céu formam desenhos que lembram a infância, que fazem sorrir? Se tudo aqui dentro, por baixo da pele não queima, não extasia, não vibra? É só cinza e sem sentimento. Só cinza e com uma agonia semelhante a da fome. É cinza, e espera. É como se soubesse da poesia do mar, do vento, das árvores. Como se tivesse aprendido em outra vida, mas não. Fora nessa. Nessa vida, que agora deixava a poesia e o sol parecerem pertencer a outros olhos, por trás desses olhos que só vêem. Não sentem. Não mais.

L.L.

Finde

E a nossa relação se torna uma linearidade de paradoxos. Você deita, eu levanto, e encontro no caminho o arrependimento de levantar e te deixar e quando volto, você não está mais lá...sentou no sofá.

E eu me torno aficcionada pelas brigas só pra sentir depois o carinho que você faz na minha cabeça, aquele, sempre que você vem pedir perdão. E quando eu te olho eu sinto raiva e o maior amor do mundo, e digo que não aguento mais essa situação, tão contrária a paz, mas quando o despertador toca, lá estou eu, com o café pronto pra tomarmos juntos.

Mais um dia. E é um dia vivido por dia, uma construção não planejada. E ainda cremos que no fim, a arquitetura sairá de mestre.

L.L.

outubro 18, 2011

Redondilhas

Acabaram-se as crônicas, os sonetos, acabaram-se os versos alexandrinos. Tudo que estava escrito dentro de mim e que por algum motivo eu não consegui expressar esse tempo inteiro. Acabaram-se porque não saem não se expelem. Enterram-se dentro mim, fincados, costurados, presos para sempre. E carregam consigo todo o seu significado: você.

L.L.

Somos roupa velha

“De certo que tudo será esquecido, vou sair pela porta dessa sala agorinha e então, encerrado. Só queria guardar esse momento agora, pra nunca mais. É que tenho me torcido em meio ao sofá, a cadeira e os lençóis por cinco dias e resolvi depois de tanto torcer me deixar pendurada aqui pra secar, mas não vou vir buscar-me, deixe estar, depois você recolhe e passa, quem sabe use ou doe. É só que eu não me quero mais torcida. Saindo daqui vou num brechó e não saberei por que, mas comprarei roupa nova, já passada, e quem sabe por quem usada. É engraçado, porque vou vestir alguém do mesmo jeito que alguém vai me vestir e talvez ficar imaginando toda a vida que carregada nessa roupa eu torcida. E nem me pergunte por que me torci tanto, foi só dor nas costas porque corri demais, atrás de alguma outra coisa que nunca alcancei.”

Tudo bem, obrigada pela roupa você torcida, farei bom uso.

L.L.

outubro 10, 2011

Cartela de...palavras

Consigo entender agora como é tudo meu. Meus pensamentos, minhas palavras, minhas atitudes, ou a falta delas. São meus dedos que percorrem as teclas, ou seguram uma caneta (porque odeio lápis), são meus olhos que olham a paisagem, que fazem poesia em voz baixa. E se o retrato de tudo que eu vejo, sinto, ouço e penso fica ainda guardado só na minha cabeça, dificil é crer que alguém entenderia a sério as palavras proferidas tão antes e sempre por mim. Elas são só paisagem, que alguém vê e entende a sua maneira, fazendo um novo ciclo se iniciar.

L.L.

A Falta

E nesta manhã tenho meu cigarro e minha xícara com café. Tenho uma casa desarrumada, cachorros eufóricos e um gato preguiçoso. Nesta manhã tenho minha só companhia e tenho saudade do meu outro pedaço, longe involuntariamente, longe temporariamente.

L.L.

outubro 07, 2011

Oceano

Todos os dias
é a felicidade
afogar-se
no mar
do amar.
a mar a mar a mar

L.L.

Prozac não

Na loucura instalada, busca quase que insana pela juventude não perdida, mas esquecida… Era um demônio se apossando do que eu acho que eu sou, ou eu sou o demônio dentro de mim? Talvez seja só a adaptação às mudanças do mar, temperatura sabe? Como peixes...

L.L.

outubro 03, 2011

Perder-se

Não importa mesmo o escândalo dos outros. O alarde em cartas escritas com os dedos, a reclamação tão desnuda e desprovida de argumentos. Os outros vivem, morrem do lado de lá. Aqui, no seu peito, somos diferentes do mundo inteiro. Somos inteiros em corpo a corpo, copos metade cheios, cinzas ao redor voando devagar, desenhando estradas pelo chão com o doce vento do ventilador velho. Vontade é não sair nunca mais, não preciso de Machado e tampouco de Dali, quando a arte está toda nessas paredes de concreto, escrita e pintada, desenhados em montes de batons nossos sonhos mais lúcidos que dessa gente lá fora. Ah... Em que mês estamos mesmo?

L.L.